Se eu tivesse tomado um atalho, uma rua estreita qualquer, que tipo de pessoa eu teria me tornado? Não sei. Mas gostaria muito de saber.
Pelo retrovisor, vejo todas as pessoas que eu poderia ter sido e não fui. Algumas eu nem gostaria de ser mesmo, tipo arrogante, ma humorada sem amor, sem alma plena e limpa com bondade e paz, algumas eu queria ter sido, sim, mais forte, feliz por completo, satisfeita. Nem tudo é como agente quer, tudo é do jeito que tem que ser.
Mas acho que na minha infância me orgulharia da pessoa que sou, que me tronei, em alguns aspectos, pois não me imaginava assim tão desconfiada, nem que haveria tanta maldade nesse mundo, onde somos todos vítimas de uma rotina incansável e cheia de problemas, se bem que... Problema é agente que faz, um problema nunca é um problema se não pensarmos nele como um problema e sim como uma aprovação, fácil escrever isso, super, mas quero ver eu fazer isso, a verdade é que eu escrevo sonhos, em que as vezes nem tenho chance de realizar, mas continuo sonhando, e vou morrer assim, e é isso que me motiva, que me faz levantar da cama agora, saber que meus sonhos, são só sonhos porque nunca tentei tirar ele dos meus pensamentos e colocar na prática, mas nesse novo ano eu vou, entrar em uma rua bem larga, cheia de flores e uma linda queda d' água, onde a chegada é.. bem, quando eu chegar, eu conto como foi.

Sou forte. Meio doce e meio ácida. Em alguns dias acho que sou fraca. E boba. Preciso de um lugar onde enfiar a cara pra esconder as lágrimas. Aí penso que não sou tão forte assim e começo a olhar pra mim. Sou forte sim, mas também choro. Sou gente. Sou humana. Sou manhosa. Sou assim. Quero que as coisas aconteçam já, logo, de uma vez. Quero que meus erros não me impeçam de continuar olhando para a frente. E quero continuar errando, pois jamais serei perfeita (ainda bem!). Tampouco quero ser comum e normal. Quero ser simplesmente eu. Quero rir, sorrir e chorar. Sentir friozinho na barriga, nó no peito, tremedeira nas pernas. Sentir que as coisas funcionam e que tenho que trocar de jeito quando insisto em algo que não dá resultado. Quero aprender e, ainda assim, continuar criança. Ficar no sol e sentir o vento gelado no nariz. Quero sentir cheiro de grama cortada e café passado. Cheiro de chuva, de flor, cheiro de vida. Aprecio as coisas simples e quero continuar descomplicando o que parece complicado. Se der pra resolver, vamos lá! Se não dá, deixa pra lá. A vida não é complicada e nem difícil, tudo depende de como a gente encara e se impõe. Quero ser eu, com minha cara azeda e absurdamente açucarada. Não quero saber tudo e nem ser racional. Quero continuar mantendo o meu cérebro no lugar onde ele se encontra: meu coração. E essa é a melhor parte de mim.
Sou tipo uma metamorfose ambulante mesmo, bem que dizem por ai, que eu sou a louca, a marrenta, que duvida de todo mundo, que tem que ver para acreditar, sabe, aquela que gosta de coisas antigas, que ama um livro amarelado do tempo, e um som de uma vitrola, ah! Esse som maravilhosa, que vem daquela agulha raspando no disco, da a emoção de estar vivendo nos anos 80, isso é demais! Tem cheiro de verdade e de curiosidade, época em que os poetas cantavam o futuro, não muito distante, que infelizmente vivo atualmente, um mundo de falsidade e hipocrisia, eu não consigo mais viver aqui. Será que ninguém ainda notou que eu não aguento essa gente, eu não suporto mais olhar televisão e ouvir conversas inúteis, de gente pobre, pobre de alma, sem conhecimento, prefiro ainda, conversar com meus avós do que com pessoas da minha idade, eles são muito cultos, na boa, eles são inteligentes demais! Eles me entendem, porra, como pode meus avós me entendem, se liga só, que eu to perdida nesse mundo.
Eu havia mudado, o mais impressionante era que a mudança vinha de fora, as roupas, o modo de andar, o cabelo pintado, o fato de passar mais maquiagem, mudei o jeito de pensar de falar e até de agir, mudei meu jeito, mudei tudo, só pra disfarçar o que não havia mudado ainda, o coração.
Nós somos ridículos, levianos, cheios de maus hábitos, sentimos, tédio, não sabemos olhar, não sabemos compreender, ora, todos nós somos assim, nós todos, e tanto os senhores quanto eu, quanto eles! Porque os senhores não vão ficar ofendidos pelo fato de eu estar lhes dizendo isto na cara, dizendo que somos ridículos! E sendo assim, por acaso os senhores não são material? Sabem, a meu ver, ser ridículo é às vezes até bom, até melhor: é mais fácil perdoar uns aos outros, é mais fácil fazer as pazes; não se vai compreender tudo de uma vez, não se vai começar diretamente pela perfeição! Para atingir a perfeição é preciso primeiro não compreender muita coisa! E se compreendemos muito rapidamente vai ver que não compreendemos bem o suficiente pra entender o que viemos fazer nesse mundo.
Diante de tantas coisas ruins, tanta loucura e confusão, falta de amor camuflada em um sorriso escandalosamente falso, onde todos querem ser mais que os outros e mais felizes; mais bonitos; mais ricos; sendo que estão cada vez mais pobres, mais pobres de espírito, e eu lhes digo isso na cara senhores, pois o medo já é um sentimento insistente.
Somos mais que rótulos, mas estamos sendo chanfrados e limpos, como uma moeda, como aquelas dos Estados Unidos, American Idiot.
Um mundo onde tudo é crime, mas nada é feito...

Pouca comida é miséria, comer pouco é educação. Feiura no rosto é apenas feio, feiura na tela é irreverência. Lixo é repugnante, lixo moldado é reciclagem. Mulher nua na rua é prostituta, mulher nua na rua segurando um cartaz é protesto. Velho com vitrola é atrasado, jovem com vinil é estilo. Pobre artista é pichador, rico com tinta é gênio. Baile funk é perda de tempo, balada eletrônica é diversão. Ir sem roupa ao shopping é atentado violento ao pudor, ir sem roupa à praia é naturalismo. Milionário usando chinelas é humilde, humilde com chinela é milionário. Cachorro com coleira é fofo, cachorro sem coleira é vira-lata. Sirene em bairro rico é ambulância, sirene em favela é polícia. Estrondo em dia de jogo são fogos de artifício, estrondo em dia de jogo dentro da comunidade são traficantes. Aluno que cola é esperto, aluno que estuda é otário. Mentira dita muitas vezes é verdade, verdade nunca dita é mentira. Solidão aos dezesseis é drama, solidão aos sessenta é necessidade. Cabelo enrolado é cabelo ruim, cabelo liso com babyliss é sexy. Palmada em filho é disciplina, palmada em aluno é caso de notícia. Modelo gorda é inaceitável, modelo magra é pleonasmo. Macaco é racismo, branquelo é apelido. Seios na televisão é apelação, seios na televisão em fevereiro é carnaval. Foto do pé é cafona, foto do pé com efeito de instagram é vintage. Criança magra é desnutrida, criança obesa é descuido. Menino com amigas é gay, meninas com amigos é oferecida. Homem com várias é inspiração, mulher com vários é mal falada. Adotar um bebê é amor, adotar um adolescente é caridade. Palavrão na rua é baixaria, palavrão na música é alternativo. Verde e amarelo é cafonice, torcer pra seleção é patriotismo. Beijar é bom, beijar dois na mesma festa é segredo, beijar outro é traição, beijar ninguém é ser encalhado. Andar de mãos dadas é fofo, andar da mãos dadas com alguém do mesmo sexo é pouca vergonha. Reclamar do governo é legal, fechar a TV no horário político é rotina. Mandar cartas é velharia, receber cartas é romantismo. Não ter filhos é lamentável, optar por não ter filhos é estilo de vida. Xingamento na cama é ousadia, xingamento na mesa é barraco. Criança loira, bem vestida e sozinha está perdida, criança negra, suja e sozinha é assaltante. A fome é um problema mundial, a fome do outro não é problema meu. Bonita e difícil é atraente, bonita e fácil é vagabunda, feia e difícil é burra, feia e fácil é descartável. Bater em mulher é machismo, mulher bater em homem é engraçado. Católico assassino é banalidade, protestante assassino é hipocrisia. Passear no campo é liberdade, morar no campo é falta de dinheiro. Óculos espelhado é horrível, óculos espelhado de marca é moda. Livro de cinquenta reais é caro, uísque de cinquenta reais é festa. Matar um cachorro é desumano, matar um boi é churrasco. Um assassinato é fatalidade, três mil é estatística. Ser ou não ser é Shakespeare, indecisão é defeito. Acreditar no amor é beleza, acreditar em alienígenas é ilusão. Grito na música é rock’n’roll, grito sem ritmo é falta de argumentos. Loucos só passaram a existir quando a normalidade foi inventada, diferenças só não foram aceitas quando alguém tentou ser diferente. Conceitos não mudam realidades, mas realidades mudam conceitos. Pessoas não são palavras, mas palavras formam pessoas. Se é certo que somos produtos do meio, é certo também que somos somente produtos. Indivíduos são matérias-primas em abundância, mas individualidade é artigo de luxo. Rótulo na embalagem é essencial, rótulo em tudo é apenas uma sociedade.
O que falta para eu entender que acabou? Que dor falta sentir? Mas amor não se pede, imagine só. Ei, seu tonto, será que você não pode me olhar com olhos de devoção, porque eu estou aqui quase esmagada com sua presença? Não, não dá pra dizer isso. Ei, seu falso, será que você pode me abraçar como se estivéssemos caindo de uma ponte porque eu estou aqui sem chão com sua presença? Não, você não pode dizer isso. Ei, monstro do lixo, será que você pode me beijar como um beijo de final de filme porque eu estou aqui sem saliva, sem ar, sem vida com a sua presença? Definitivamente, não, melhor não. Amor não se pede, é uma pena. É uma pena correr com pulinhos enganados de felicidade e levar uma rasteira. É uma pena ter o coração inchado de amar sozinha, olhos inchados de amar sozinha. Um semblante altista de quem constrói sozinha sonhos. Mas você não pode, não, eu sei que dá vontade, mas não dá pra ligar pro desgraçado e dizer: ei, tô sofrendo aqui, vamos parar com essa estupidez de não me amar e vir logo resolver meu problema? Mas amor, minha querida, não se pede, dá raiva, eu sei. Raiva dele ter tirado o gosto do amor de ti.Raiva dele ter tirado as cores bonitas do mundo, a felicidade imensa em ver crianças sorrindo, a graça na bobeira de um cachorro querendo brincar. Ele roubou sua leveza mas, por alguma razão, você está vazia. Mas não dá, nem de brincadeira, pra você ligar pro cara e dizer: ei, a vida é curta pra sofrer, volta, volta, volta. Porque amor, meu amor, não se pede, é triste, eu sei bem. É triste ver o Sol e não vê-lo, são tristes as manhãs que prometem mais um dia sem ele, são tristes as noites que cumprem a promessa. É triste respirar sem sentir aquele cheiro que invade e você não olha de lado, aquele cheiro que acalma a busca. É triste amar tanto e tanto e esse amor não ter proveito. Tanto amor querendo fazer alguém feliz. Tanto amor querendo escrever uma história, mas só escrevendo este texto amargurado. É triste saber que falta alguma coisa e saber que não dá pra comprar, substituir, esquecer, implorar. É triste lembrar como eu ria com ele. Mas amor, você sabe, amor não se pede.